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Quando
a estátua do general Artigas amanheceu
vestida com uma camiseta verde-amarela
em uma das praças mais movimentadas de
Rivera, em 1995, temeu-se que a paz
sucumbiria na fronteira. Não seria a
primeira vez que os ânimos se
acirrariam naquelas latitudes, obrigando
as polícias dos dois lados a perfilarem-se
na linha divisória, em prontidão. Para
o povo de Sant’Ana do Livramento, a
molecagem de agasalhar o maior herói
uruguaio com o uniforme da seleção
brasileira teve sabor de vingança: é
que os vizinhos fizeram festa pela
derrota do Brasil na final da Copa América,
naquele ano. A julgar pelas extraordinárias
histórias que vi e ouvi agora, contudo,
só mesmo o futebol para provocar alguma
cizânia mais séria entre os moradores
das duas cidades – e, ainda assim,
eventuais rusgas jamais deixaram
ressentimentos.
Livramento
e Rivera estão no coração do pampa e
distam cerca de 500 quilômetros,
respectivamente, de Porto Alegre e
Montevidéu. A separá-las, uma linha
que não se vê pelo chão, mas que todo
mundo sabe onde fica: exatamente no meio
das ruas. De um lado, Brasil; do outro,
Uruguai. Sem barreiras físicas ou
qualquer obstáculo para demarcar a
separação dos países, testemunham-se
ali cenas inimagináveis em qualquer
outro lugar do planeta. Mesmo um
corriqueiro acidente de trânsito, como
o que em maio deste ano envolveu o
contador Gonzalo Câmio e o funcionário
consular Marcos Guedes na principal
avenida de Rivera, a Sarandí, pode
fornecer as tintas para pintar um fiel
retrato da vida na região.
Câmio,
de 30 anos, é brasileiro, como o pai.
Sua mãe, no entanto, é uruguaia, assim
como sua esposa e seu filho. Guedes, de
75 anos, é uruguaio, casado com uma
brasileira, e seus dois filhos têm
dupla cidadania. Câmio mora em
Livramento e é funcionário de uma loja
de Rivera. Guedes, que tem um carro com
placa brasileira, também vive em
Livramento, mas trabalha no consulado
uruguaio, que é território estrangeiro.
Para os protagonistas da colisão, tais
coincidências são normais – pois a
coisa mais natural nessas bandas é ser
doble chapa, como são chamados os cidadãos
binacionais, por filiação ou casamento.
A origem do epíteto está nos automóveis
dos dois municípios que, até há pouco
tempo, podiam transitar com "chapas
duplas", quer dizer, com licenças
do Brasil e do Uruguai simultaneamente.
(Em tempo: Câmio e Guedes já se
entenderam, e a pequena batida terminou
em pizza.)
Vistas
do alto, Livramento e Rivera são uma única
cidade, e a fronteira, em vez de
separar, estreita cada vez mais os laços
entre ambas. "Somos um exemplo de
fraternidade para o mundo todo",
diz, orgulhosa, a professora Neide
Gonzales Rodrigues, 48 anos. A atração
mais simbólica das cidades xifópagas
está na praça Internacional: um
obelisco, de inspiração maçônica,
com 30 metros de altura, ladeado pelas
bandeiras do Brasil e do Uruguai. (Confesso
que perdi a conta das vezes em que me
sentei na base do monumento apenas para
experimentar o prazer quase infantil de
estar com um pé em cada país.)
Embora
sejam consideradas cidades gêmeas,
Livramento nasceu primeiro, em 1823,
quando moradores de um incipiente
povoado ergueram sua primeira capela.
Rivera só seria criada em 1867, por
decreto do governo uruguaio, com
objetivos estratégicos de ocupação do
território fronteiriço. Com o tempo,
as necessidades comuns, a convivência e
a ausência de barreiras forjaram esse
fenômeno sociogeográfico único no
mundo. Transformada em zona franca,
Rivera hoje faz a festa dos turistas que
a invadem atrás de bebidas, produtos
eletrônicos e roupas de lã. No inverno,
60% das receitas comerciais riverenses
devem-se aos brasileiros. Em
contrapartida, os riverenses são
responsáveis por 40% das vendas nas
lojas e nos supermercados santanenses.
Tanta dependência recíproca resultou
em uma série de inusitados acordos de
cooperação. O mais curioso deles é o
que permite que as chamadas telefônicas
entre as duas cidades – no caso, dois
países – sejam tarifadas como ligações
locais. Mais: em emergências, os
bombeiros de ambos os lados se auxiliam
mutuamente.
Apesar
de viverem como unha e carne,
santanenses e riverenses distinguem-se
em seus hábitos. O chimarrão, por
exemplo: as cuias dos gaúchos são
grandes e decoradas; as dos uruguaios,
pequenas e despojadas. Se o assunto é
churrasco, aí sim a prosa pega fogo. Além
dos cortes diferentes, brasileiros e
uruguaios divergem no jeito de assar: os
primeiros utilizam espetos; los hermanos
usam grelhas de canículas.
De
grande tradição pecuária, a região
abriga regularmente competições rurais
conhecidas como gineteadas. Eu decidi
assistir a uma dessas verdadeiras olimpíadas
campeiras. Peões de Livramento e
Rivera, montados em galhardos cavalos
crioulos, exibem sua destreza no tiro de
laço, na boleadeira e nas demais
modalidades cujo maior objetivo é
exercer controle sobre as reses. Depois
das provas, os acampamentos das estâncias
transformam-se em vitrine da mais autêntica
culinária pampiana: torta de bola de
touro (uma iguaria preparada com os testículos
do desafortunado macho bovino), mondongo
(tripa de ovelha) e ensopado de espinhaço
(um cozido feito com as costelas da
ovelha). Diante de tão ortodoxo cardápio,
preferi almoçar uma, digamos, frugal
parilla em Rivera.
Na
gineteada, pude perceber que parte
considerável da população das duas
cidades é bilíngüe – embora os
uruguaios reclamem de uma certa "preguiça"
dos vizinhos em compreender o espanhol.
Nesse terreno, as maiores contribuições
vêm do compositor uruguaio Chito de
Mello, de 55 anos, verdadeiro menestrel
da fronteira, com suas bem-humoradas canções
carregadas de portunhol. "Canto a
Rivera, canto a Livramento/Yo que por
suerte en el pago nací/Y a todo el que
habla el portunhol acento/Dejo mi abrazo
con un ‘chau para ti’/Porque por
siempre estarán hermanadas/Ruas dos
Andradas con la Sarandí", diz uma
das letras do CD Rompidioma, seu
primeiro trabalho gravado. A propósito,
a rua dos Andradas, principal via
comercial de Livramento, termina na praça
Internacional, e ali se funde com a
avenida Sarandí, onde está a maioria
das free shops.
O
jornal de Livramento, A Platéia, é
outro exemplo de que a comunicação não
é problema: trata-se do único diário
brasileiro com noticiário em português
e castelhano. Em compensação, Rivera já
tem grupos de capoeira e até escola de
samba. E o que seria herético em
qualquer outro lugar do Brasil por aqui
é natural: a rainha do Carnaval
santanense, a bela Karen dos Santos
Rodrigues, 18 aninhos, é estrangeira.
Riverense da gema.
É
no trecho urbano da linha divisória, no
entanto, que ocorrem as situações mais
bizarras. Recentemente, os camelôs que
ocupam os centímetros lindeiros do
Brasil tiveram apenas que juntar suas
tralhas e recuar um único passo para
escapar de uma blitz da Receita Federal.
Mas inacreditável mesmo foi a história
que ouvi de um motorista santanense.
Disse-me ele que, certo dia, percorreu
alguns metros com seu carro na contra-mão
antes de entrar na avenida 33
Orientales, que fica em Rivera. Um
policial uruguaio quis multá-lo.
"Mas, seu guarda, aqui não é o
Uruguai?", perguntou, cinicamente,
o infrator. "Sí, por
supuesto", confirmou o agente da
lei. "Então, o senhor não pode me
autuar. Eu estava na contra-mão no
Brasil; entrei no Uruguai pela mão
certa", replicou o brasileiro.
Cheio de razão, o infrator safou-se da
pena. E foi embora.
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