Sant'Ana do Livramento (RS)/Rivera (Uruguai)

 

Clique sobre as imagens para ampliá-las














 


ZOOM >>
 

97573-000
/40000

POPULAÇÃO: Livramento – 90,9 mil habitantes;

Rivera – 67,2 mil

QUANTIDADE DE DOBLE CHAPAS NAS DUAS CIDADES: Ninguém sabe

BEBIDA TÍPICA DE RIVERA: Espinillar, um destilado de cana com sabor entre o uísque e a cachaça

SANTANENSE ILUSTRE: O cantor Nélson Gonçalves

DATA MAIS COMEMORADA NA FRONTEIRA: O Revéillon, festejado duas vezes por causa do horário de verão adotado pelo Brasil

DATA MAIS LEMBRADA PELOS URUGUAIOS: 16 de julho de 1950, o dia do maracanazo, quando o Brasil perdeu a final da Copa para o Uruguai

 

A confusão está armada na mais singular fronteira do país. Os carros da batida são brasileiros. Mas a rua, um dos motoristas, o policial – e a lei que julgará todos – são uruguaios.

Por Willians Barros Fotos de Rodrigo Baleia

Quando a estátua do general Artigas amanheceu vestida com uma camiseta verde-amarela em uma das praças mais movimentadas de Rivera, em 1995, temeu-se que a paz sucumbiria na fronteira. Não seria a primeira vez que os ânimos se acirrariam naquelas latitudes, obrigando as polícias dos dois lados a perfilarem-se na linha divisória, em prontidão. Para o povo de Sant’Ana do Livramento, a molecagem de agasalhar o maior herói uruguaio com o uniforme da seleção brasileira teve sabor de vingança: é que os vizinhos fizeram festa pela derrota do Brasil na final da Copa América, naquele ano. A julgar pelas extraordinárias histórias que vi e ouvi agora, contudo, só mesmo o futebol para provocar alguma cizânia mais séria entre os moradores das duas cidades – e, ainda assim, eventuais rusgas jamais deixaram ressentimentos.

Livramento e Rivera estão no coração do pampa e distam cerca de 500 quilômetros, respectivamente, de Porto Alegre e Montevidéu. A separá-las, uma linha que não se vê pelo chão, mas que todo mundo sabe onde fica: exatamente no meio das ruas. De um lado, Brasil; do outro, Uruguai. Sem barreiras físicas ou qualquer obstáculo para demarcar a separação dos países, testemunham-se ali cenas inimagináveis em qualquer outro lugar do planeta. Mesmo um corriqueiro acidente de trânsito, como o que em maio deste ano envolveu o contador Gonzalo Câmio e o funcionário consular Marcos Guedes na principal avenida de Rivera, a Sarandí, pode fornecer as tintas para pintar um fiel retrato da vida na região.

Câmio, de 30 anos, é brasileiro, como o pai. Sua mãe, no entanto, é uruguaia, assim como sua esposa e seu filho. Guedes, de 75 anos, é uruguaio, casado com uma brasileira, e seus dois filhos têm dupla cidadania. Câmio mora em Livramento e é funcionário de uma loja de Rivera. Guedes, que tem um carro com placa brasileira, também vive em Livramento, mas trabalha no consulado uruguaio, que é território estrangeiro. Para os protagonistas da colisão, tais coincidências são normais – pois a coisa mais natural nessas bandas é ser doble chapa, como são chamados os cidadãos binacionais, por filiação ou casamento. A origem do epíteto está nos automóveis dos dois municípios que, até há pouco tempo, podiam transitar com "chapas duplas", quer dizer, com licenças do Brasil e do Uruguai simultaneamente. (Em tempo: Câmio e Guedes já se entenderam, e a pequena batida terminou em pizza.)

Vistas do alto, Livramento e Rivera são uma única cidade, e a fronteira, em vez de separar, estreita cada vez mais os laços entre ambas. "Somos um exemplo de fraternidade para o mundo todo", diz, orgulhosa, a professora Neide Gonzales Rodrigues, 48 anos. A atração mais simbólica das cidades xifópagas está na praça Internacional: um obelisco, de inspiração maçônica, com 30 metros de altura, ladeado pelas bandeiras do Brasil e do Uruguai. (Confesso que perdi a conta das vezes em que me sentei na base do monumento apenas para experimentar o prazer quase infantil de estar com um pé em cada país.)

Embora sejam consideradas cidades gêmeas, Livramento nasceu primeiro, em 1823, quando moradores de um incipiente povoado ergueram sua primeira capela. Rivera só seria criada em 1867, por decreto do governo uruguaio, com objetivos estratégicos de ocupação do território fronteiriço. Com o tempo, as necessidades comuns, a convivência e a ausência de barreiras forjaram esse fenômeno sociogeográfico único no mundo. Transformada em zona franca, Rivera hoje faz a festa dos turistas que a invadem atrás de bebidas, produtos eletrônicos e roupas de lã. No inverno, 60% das receitas comerciais riverenses devem-se aos brasileiros. Em contrapartida, os riverenses são responsáveis por 40% das vendas nas lojas e nos supermercados santanenses. Tanta dependência recíproca resultou em uma série de inusitados acordos de cooperação. O mais curioso deles é o que permite que as chamadas telefônicas entre as duas cidades – no caso, dois países – sejam tarifadas como ligações locais. Mais: em emergências, os bombeiros de ambos os lados se auxiliam mutuamente.

Apesar de viverem como unha e carne, santanenses e riverenses distinguem-se em seus hábitos. O chimarrão, por exemplo: as cuias dos gaúchos são grandes e decoradas; as dos uruguaios, pequenas e despojadas. Se o assunto é churrasco, aí sim a prosa pega fogo. Além dos cortes diferentes, brasileiros e uruguaios divergem no jeito de assar: os primeiros utilizam espetos; los hermanos usam grelhas de canículas.

De grande tradição pecuária, a região abriga regularmente competições rurais conhecidas como gineteadas. Eu decidi assistir a uma dessas verdadeiras olimpíadas campeiras. Peões de Livramento e Rivera, montados em galhardos cavalos crioulos, exibem sua destreza no tiro de laço, na boleadeira e nas demais modalidades cujo maior objetivo é exercer controle sobre as reses. Depois das provas, os acampamentos das estâncias transformam-se em vitrine da mais autêntica culinária pampiana: torta de bola de touro (uma iguaria preparada com os testículos do desafortunado macho bovino), mondongo (tripa de ovelha) e ensopado de espinhaço (um cozido feito com as costelas da ovelha). Diante de tão ortodoxo cardápio, preferi almoçar uma, digamos, frugal parilla em Rivera.

Na gineteada, pude perceber que parte considerável da população das duas cidades é bilíngüe – embora os uruguaios reclamem de uma certa "preguiça" dos vizinhos em compreender o espanhol. Nesse terreno, as maiores contribuições vêm do compositor uruguaio Chito de Mello, de 55 anos, verdadeiro menestrel da fronteira, com suas bem-humoradas canções carregadas de portunhol. "Canto a Rivera, canto a Livramento/Yo que por suerte en el pago nací/Y a todo el que habla el portunhol acento/Dejo mi abrazo con un ‘chau para ti’/Porque por siempre estarán hermanadas/Ruas dos Andradas con la Sarandí", diz uma das letras do CD Rompidioma, seu primeiro trabalho gravado. A propósito, a rua dos Andradas, principal via comercial de Livramento, termina na praça Internacional, e ali se funde com a avenida Sarandí, onde está a maioria das free shops.

O jornal de Livramento, A Platéia, é outro exemplo de que a comunicação não é problema: trata-se do único diário brasileiro com noticiário em português e castelhano. Em compensação, Rivera já tem grupos de capoeira e até escola de samba. E o que seria herético em qualquer outro lugar do Brasil por aqui é natural: a rainha do Carnaval santanense, a bela Karen dos Santos Rodrigues, 18 aninhos, é estrangeira. Riverense da gema.

É no trecho urbano da linha divisória, no entanto, que ocorrem as situações mais bizarras. Recentemente, os camelôs que ocupam os centímetros lindeiros do Brasil tiveram apenas que juntar suas tralhas e recuar um único passo para escapar de uma blitz da Receita Federal. Mas inacreditável mesmo foi a história que ouvi de um motorista santanense. Disse-me ele que, certo dia, percorreu alguns metros com seu carro na contra-mão antes de entrar na avenida 33 Orientales, que fica em Rivera. Um policial uruguaio quis multá-lo. "Mas, seu guarda, aqui não é o Uruguai?", perguntou, cinicamente, o infrator. "Sí, por supuesto", confirmou o agente da lei. "Então, o senhor não pode me autuar. Eu estava na contra-mão no Brasil; entrei no Uruguai pela mão certa", replicou o brasileiro. Cheio de razão, o infrator safou-se da pena. E foi embora.